Lead and Leader 

Jun/11
19

Infelizmente, ou n√£o, a cultura que rodeia a produ√ß√£o de software √© largamente¬†influenciada¬†pelas cria√ß√Ķes de¬†pa√≠ses¬†de¬†l√≠ngua¬†inglesa que express√£o novos conceitos na sua lingua que muitas vezes perdem significado na tradu√ß√£o. J√° analisei aqui o problema da palavra “Design” e como “Design Patterns” perde muito do seu significado na tradu√ß√£o para “Padr√Ķes de Projeto”. Hoje vou abordar o problema da palavra Lead, usada em express√Ķes como Lead Architect e Lead Designer (j√° est√£o a ver o duplo problema aqui, certo?) e a diferen√ßa para Leader.

Ora, Leader , em português Líder é alguém que tem o papel de guiar mas tem comando sobre outros. Enquanto que Lead (Condutor) é apenas o que tem papel de guiar e estar à frente. Estar à frente significa ser o porta-voz.

A cultura local absorveu o conceito de forma errada¬†substitu√≠do¬†aquilo que era intencionalmente apenas um Condutor para aquilo que se espera ser um L√≠der e¬†express√Ķes¬†como Lead Architect viraram¬†L√≠der¬†de Arquitetura ou Arquiteto L√≠der e Lead Designer virou “L√≠der T√©cnico”. Note a dupla perda de significado j√° que Designer √© o respons√°vel pelo design, ou seja pelo conhecimento de como todas as partes se integram e trabalham juntas dentro do software. A palavra “T√©cnico” √© extramente pobre para convir este significado. Quanto a mim n√£o tem, sequer, nada que ver.

As empresas ,ent√£o, procuram lideres¬†t√©cnicos. Mas o que faz um lider¬†t√©cnico ? A resposta √© simples :”lidera a equipe de¬†t√©cnicos” no sentido de “comanda” ou “√© respons√°vel por” ou ainda, em alguns casos , “respons√°vel por domar a equipe de¬†t√©cnicos conforme os preceitos da empresa”. Ora, isto n√£o tem nada que ver com software e o conceito de Lead Designer e sim com a arcaica hierarquia pseudo-militar que as empresas tanto gostam de usar. Tem mais que ver com o conceito de “Team leader”, que √© outra coisa completamente diferente. Para come√ßar “Team leader” n√£o √© um cargo, √© um¬†reconhecimento.¬†Muitas vezes o erro vai mais longe e se confunde Arquiteto com “L√≠der T√©cnico” o que causa v√°rios desastres quando o l√≠der¬†t√©cnico n√£o sabe de arquitetura ou quando o arquiteto n√£o sabe de lideran√ßa.

Depois estas mesmas empresas n√£o entendem porque seus projetos t√™m problemas e existem conflitos. √Č porque a hierarquia da empresa ¬†n√£o corresponde com as responsabilidades necess√°rias a fazer um software nem com as capacidades das pessoas em cada n√≠vel.

Acentuo que “l√≠der” n√£o √© um cargo, √© um direito, uma conquista. Uma conquista de respeito. As pessoas seguem¬†a um¬†l√≠der¬†n√£o porque ele as ordena, mas porque elas confiam nele. O comando vem depois de que a pessoa j√° deu provas que as suas ideias, a√ß√Ķes e valores sempre resultam em bons resultados para essa mesmas pessoas que confiam nele.

Parafraseando Plat√£o, A for√ßa do Homem √© medida por aquilo que ele faz com o Poder. Mas o¬†car√°cter do Homem √© medido por aquilo que ele faz sem Poder. Ou seja, l√≠deres n√£o se criam, eles nascem. E depois que eles provam o seu valor √© lhes dado o poder de comando. Contudo, isto que √© v√°lido¬†na vida militar ou politica, n√£o √© v√°lido na vida¬†t√©cnica. ¬†Lembre-se que nem os militares nem os¬†pol√≠ticos¬†s√£o¬†t√©cnicos¬†– ou seja, n√£o seguem nenhuma disciplina racional especifica. Militares seguem ordens e s√£o bem treinados para executar qualquer tipo de ordens e¬†Pol√≠ticos¬†simplesmente convencem pessoas pelos seus interesses. N√£o ha¬†ci√™ncia¬†por detr√°s destas atividades e por isso a¬†import√Ęncia¬†de lideres que tenham a capacidade de agregar pessoas junto a eles : carisma.

Tudo bem que o carisma pode ser usado em qualquer √°rea, inclusive em equipes de software. √Č especialmente √ļtil quando a pessoa n√£o conhece a parte¬†t√©cnica¬†e se baseia na engenharia social para parecer e alcan√ßar aquilo que n√£o √© e n√£o tem. Ou seja, o carisma poder ser uma boa forma de enganar os tolos. Em uma equipe de¬†t√©cnicos¬†o trabalho acaba se resumindo √† pr√°tica da constru√ß√£o de algo que funciona. Ora, carisma n√£o faz as coisas funcionarem, √© o conhecimento¬†t√©cnico¬†e a experiencia que tornam¬†poss√≠vel¬†levar ideias √† pr√°tica e tornar requisitos em software.

Mesmo assim, as empresas procuram pessoas carism√°ticas que possam ser¬†l√≠deres¬†de equipe¬†t√©cnica, ignorando o seu conhecimento. Isto provoca um efeito comum de quem comanda a equipe n√£o saber fazer ele mesmo o que comanda aos outros. √Č aqui que o paradigma de divide entre o que √© o mundo corporativo, militar e politico daquilo que √© o mundo tecnico e pr√°tico. Nos outros mundos as pessoas aceitam e at√© – de certa forma – esperam que seus superiores n√£o saibam realizar o que pedem. O general pode ter ampla vis√£o das¬†consequ√™ncias¬†do seu pedido e o soldado nenhumas, da mesma forma que o general pode n√£o ter qualquer no√ß√£o do tipo de capacidade fisica e mental necess√°rias a levar a cabo a miss√£o e o soldado viv√™-las¬†diariamente. Em software, o software √© sempre criados pelos desenvolvedores que s√£o¬†t√©cnicos¬†que conhecem as¬†consequ√™ncias¬†do que lhes √© pedido e sabem como as realizar. Nem todos podem ser assim, mas ha muito que t√™m esta capacidade. Diferentemente dos soldados.

√Č por isto que irrita que uma equipe de software seja comparada a um exercito. Me irrita ainda mais do que se comparada a um ch√£o de f√°brica. Sempre existe o conceito de que as pessoas n√£o sabem o que est√£o fazendo e apenas est√£o ali para seguir ordens. Se isso fosse verdade coisas como “parecer tecnico”s n√£o existiram.

As empresas de hoje, ajudadas pela incompetência funcional dos RH em entender o mundo do software, procuram as pessoas erradas para os cargos errados. Aliás não sabem exatamente que cargos seriam necessários e os confundem com algum tipo de hierarquia militar. As empresas que não fazem isto ( ou não o fazem tão Às claras) têm mais competitividade ( vide Google que ao mesmo tempo que ha responsabilidade ha latitude). Todos se esquecem que criar software é uma atividade intelectual e cujo treino está em saber mais e pensar melhor, e não em saber pouco e pensar mais.

As equipes de software apenas precisam de um Guia. Um porta-voz que fale por elas e que fa√ßa a media√ß√£o com outros envolvidos.¬†Algu√©m¬†com mais experiencia que possa¬†decidir¬†impasses ¬†t√©cnicos¬†e ajudar as pessoas a saberem mais e pensarem melhor. N√£o precisam de¬†algu√©m¬†que as comande. Precisam de um Condutor, alguem √† cabe√ßa das opera√ß√Ķes , um Lead , e n√£o algu√©m que comanda cegamente , um Leader.

Tal como o problema do Junior e Sênior que foi completamente vilipendiado pelas empresas e RHs também os conceitos relativos ao papeis das pessoas em projetos de software o foram. Espero que com o tempo as pessoas cresçam mais conscientes dos seus papeis e exijam mais respeito pelas empresas contratantes e saibam escolher entre as empresas que dão valor real às qualidades realmente necessárias para trabalhar com software.

Espero que um dia exista uma express√£o me portugu√™s que signifique o mesmo que “Lead Designer” e n√£o tenha conota√ß√£o de hierarquia militar.

Um comentário para “Lead and Leader”

  1. que legal

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